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Sat, Jan. 8th, 2005, 01:58 pm A Virtude Superior
"... Por isso, à perda do Caminho segue-se então a Virtude À perda da Virtude segue-se então a Bondade À perda da Bondade segue-se então a Justiça À perda da Justiça segue-se então a Polidez Assim a Polidez é o empobrecimento da fidelidade e da confiança É o princípio da confusão..."
Acredito nestas palavras do Tao Te Ching o mais profundamente que posso. São do Poema 38. Há quem traduza "Polidez" por ritualismo, Justiça por moralidade e Bondade por caridade. São tentantivas. Acho as palavras como no texto acima mais exatas. Os salamaleques do ritualismo limita-se com a polidez da cortesia, é a liturgia da convivência social muitas vezes exterior e hipócrita. O Caminho, como bem se traduz em outro texto de Rhoden é a "vida nas profundezas do seu próprio ser". Tue, Dec. 21st, 2004, 02:45 am Motivo
Na falta de um texto próprio (é que estou muito preguiçoso, mais do que o normal) , tenho a graça de posta este belíssimo poema de Cecília Meireles. Tão conhecido que dispensa comentários. Quem já não o leu... e pensou?
" Motivo
Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste : sou poeta.
Irmão das coisas fugidias, Não sinto gozo nem tormento. Atravesso noites e dias no vento.
Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço, não sei, não sei. Não sei se fico ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo. Tem sangue eterno e asa ritmada. E um dia sei que estarei mudo: mais nada." Mon, Oct. 18th, 2004, 12:40 am Felicidade de Cada Dia
Hoje E.. me escreve falando da felicidade, como uma coisa impossível. Diz isso ao comentar o fim da novela da Globo "Celebridades". Fala dos mau-caratismos e de outros sucessos do mundo das novelas. Conclui que não existe felicidade. Tudo acaba bem apenas no mundo dos folhetins... Denuncia ao final a mentira, a hipocrisia, a falsidade que existiria invariavelmente por trás de todo relacionamento que se promete eterno e feliz. Felicidade não existe! Desabafa. Penso que não existe mesmo, pelo menos como é idealizada, como é culturalmente construída e inculcada. Ela, a Felicidade, mais simples, mais sutil, silenciosa, é construída lentamente dentro da gente. Não obstante a paz das favelas, a paz de G. Bush, a paz dos cristãos e dos budistas - diria, até - apesar de tudo, a paz irrefutávelmente, certa como a morte do nosso corpo, vai se construindo dia a dia como uma ruga nova que aparece na nossa expressão, um fio que se torna mais branco e mais fino, a voz que se torna mais tranquila, os olhos mais distantes, mais penetrantes, mais serenos. Fazemo-nos mais usufrutuários do corpo que nos é dado tão precariamente para uma alma tão ansiosa por viver. É essa alma viva, cúmplice do corpo cansado que - sem esquecer o corpo, vai construindo a felicidade nossa de cada dia. As demais pessoas, iguaizinhas a nós próprios, fazem parte da Construção mútua e misteriosa. É uma questão de fé. E, como pregam os cristãos, teofanias, milagres, palavras, gestos, pão e vinho, calvários, sepulturas e ressurreição, são elementos necessários para este processo de realização da Vida: Felicidade. Os budistas diriam tão somente: luz! Paradoxalmente, quando estamos enevoados pelo sofrimento, a verdade nos vem mais clara e cruel, parecendo negar o amanhã. Hoje, com meus olhos míopes, decepcionados, cansados de esperar e sofrer; com as mãos frouxas, recalcitrantes em fazer carinhos incertos e tecer frágeis véus de alegria; as pernas cambaleantes de correr para os desencontros, descubro que menos me amei e por causa dessa experiência egotista deixei de amar tudo o mais, principalmente as pessoas mais próximas - e incrivelmente - as mais amorosas comigo. Mais tenho do quê dei de mim. Sou perdulário da vida. Deixo o Céu cuidar de mim. Meu membros frágeis, meu corpo leve e cansado, minha alma inquieta, apenas repousam em Deus e se sentem compreendidos e perdoados. A Felicidade por fim, vai se construindo como um dom para mim imerecido. Dom divino.
Tue, Oct. 12th, 2004, 04:33 pm Quando o Bicho Corria.
Todos os dias o bicho corria às quatro horas da tarde. Dava no rádio, se ouvia de todo canto, de ponta à ponta da Paraíba: "U de Ubaldo, R de Raul, A de Antônio..." O acaso ia confirmando os sonhos. Havia quem "amarrasse" o bicho, ou seja, repetisse a aposta, com valores crescentes, a cada vez, para compensar o tanto que já fora investido. "Não se amarra o jacaré, bicho que dá em lagoa..." "Quem amarra o macaco pode perder tudo. Macaco é danado." "Amarra-se sim: cabra, touro, vaca, cachorro..." Os bichos são eventos dos globos mecânicos da Loteria Estadual, êmulos dos sonhos. Tem sonho que não dá para bicho. Outros que carecem de interpretação. "Sonhar com uma moça bonita, joga-se borboleta." "Sonhou com festa ou casa, joga-se vaca." "Sonhou com carro, joga-se elefante, que é coisa grande, ou touro, que boi é animal de puxar carro." Os sonhos correm à noite. O mistério do acaso, o jogo do destino, confirma-se pela tarde do dia de hoje o que já suspeitávamos na penumbra. Havia o bicho corrido dos amores proibidos, espúrios. Contou-me meu pai, que o bicho corria no sítio Catolé, à meia-noite, de quinze em quinze dias... Era um estrupício de assombração. Bodes e cabras aos berros jumentos e cavalos cachorrada infernal embrulhados com porcos e galinhas. Lá vinha o bicho pela estrada, avançava às carreiras, passava no terreiro, tinha animal que chegava a roçar a porta da frente da casa. Ouvia-se tudo com muito medo e curiosidade. O gado no curral se espantava, forcejava a cerca. Ropiam e corriam e estouravam para o mato. No outro dia, ia-se recolher os bois, vacas e bezerros. Não era tarefa fácil. O boi olhava para a gente, espantado, bufava desconfiado, não queria voltar. Um dia, meu pai e os dois irmão mais velhos encostados a ele, quiseram esperar o bicho armados com uma espingarda. Sabiamente meu avô não lhes permitiu. Podia ser a Burra-de-Padre que solta fogo pelas ventas. O mistério ia-se se revelar aos poucos. Entenderam depois que havia amores que só eram possíveis no absurdo das sombras, espantosamente voluptuosos, acremente rechaçados. Era preciso cobrir-se de capas, couros, chocalhos, fazer o lobisomem... enfim, em algum lugar do escuro, enquanto todos dormiam, o amor velava. Bicho eram os conceitos estreitos e a cena social em que os amores aconteciam, nos largos terreiros e caminhos. Carregados de véus e tabus que estavam, doce e liricamente os amantes se despiam.
Sun, Jul. 25th, 2004, 03:57 pm Ideogramas
Acho excelente esse Poema 18 do Tao The Ching:
"Quando se perde o Grande Caminho surgem a bondade e a justiça.
"Quando aparece a inteligência surge a grande hipocrisia.
"Quando os seis parentes não estão em paz surgem o amor filial e o amor paternal.
"Quando há confusão no reino surge o patriota."
Sou míope e tenho também a vista já cansada. Minha escrita é pequena e tímida. Desenho, rabisco quase incompreensivelmente mas a linha é reta, regular, e os garranchos são mais ou menos uniformes. Muito me impressiona ver as palavras escritas de próprio punho, sejam de quem for.
Existem palavras em que já não vejo radicais, afixos e outros aspectos morfológicos ou mnemônicos. Vejo-as como ideogramas. Aperto os olhos para ajustar a vista, sinto-me longe, no interior da palavra. Me ocorre a expressão "limite", como horizonte; e aquela outra, decantada pelo Vinícius de Morais, "tenho os olhos cansados de olhar para o além..." Estou aqui desenhando ideogramas de palavras banais... mas outras, ariscas, arredias, só me são submetidas quando etimologicamente dissecadas. Dessas exploro toda a sua forma, como que para domá-las até se tornarem ideogramas puros.
Aperto os olhos, fecho-os, quase sonho. Não há limites dentro de mim, nem tão pouco horizontes, só palavras soltas de um canto cósmico. Sun, Jul. 11th, 2004, 01:33 am Auto-retrato falado, só um close
Vim de um útero granítico. Flor de feldspato e mica, florescência aguda e arrogante do Alto Sertão. Cajazeiras com dureza e brilho. Tenho a natureza crua dos carrascais sertanejos: dura e pacífica e surpreendentemente fértil quando orvalhada.
A neblina no quebrar-da-barra do dia de Santa Luzia me faz em transe. Sei manter a esperança até o dia de São José e maravilhar-me com magras nuvens. Tenho a calma dos lajedos e o verde hirto do chique-chique. Eu também sou Chico.
Enfara-me a banalidade da chuva abundante do Litoral. A fraqueza esguia da cana - dobradiça, curvada ao sabor do vento, em silêncio ou em murmúrio tímido. Canavial monótono de gente quase morta. Aqui, o verde me é o exílio.
Nasci embalado pelas cabras. O Sabiá choroso, a Rasga-Mortalha agoureira, o Bem-Te-Vi atrevido, o Pinta-Silgo alegre, a Fogo-Pagou, passarinhos tão próprios, próximos, internos à minha natureza telúrica, tão belos, ao mesmo tempo inexplicavelmente, paradoxalmente, exóticos: cantar pra quê? O assum-preto incongruente.
Nada publiquei. Sou o dorso nu, exposto, saudoso, os vergões da Serra da Arara, o horizonte azul da minha infância.
" - Longe como a serra. Bonita e arrumada. Só de longe é assim".
Burguês miúdo, bem estabelecido, depois de ralar no mundo da música e um pouco na Universidade. Tentei uns seis a sete cursos mas, confesso, minha paciência é medíocre. Saltei a fogueira de vários concursos públicos e por fim, acabei numa repartição fria, de paredes pálidas, doente como um hospital, onde as pessoas se saúdam como os médicos: doutor fulando, doutor sicrano... hajam pacientes, hajam mazelas. Tudo é frenético, urgente, mas a morte é certa. Tudo tão formal, tão honesto, tão esgazeado. Encaro o serviço público como quem passa uma chuvada.
Nada publiquei, minhas coisas são por demais inúteis. São bens fora do mercado como as estrelas.
Ouso sublimar o por-do-sol vermelho, quente, silencioso, como a ciência da morte iminente. Suspenso que estou, a vespa vem zumbir a transitoriedade das coisas. Sob os meus pés a rocha, a flor. O grilo canta, é noite. Mon, Jul. 5th, 2004, 02:26 am Note Pad
Preciso aprender a fazer notas e guarda-las num computador, ou ainda, na rede mundial. Chegará o dia em que a Internet conterá todos os nossos rabiscos. Será o adeus aos papéizinhos soltos, as notas em cadernetas...
Lembro-me do meu Tio Quirino que anotava palavras pesquisadas no dicionário e deixava os papéizinhos nos bolsos das camisas. Depois puxava um a um, desdobrava-os cuidadosamente, e ia me perguntando se eu conhecia tal palavra e suas muitas acepções... Era uma memória auxiliar, um jeito de conservar o mundo em sua riqueza substantiva... Era a sintaxe do frágil que se abria sob seus dedos imprecisos, cuidadosos, vistos através da lente grossa da sua presbiopia, a tradição da vida pelas preposições do encontro efêmero. Eu era menino, não havia ainda mundo bastante na minha vida e as palavras eram quase todas sem sentido ou no mínimo arbitrárias.
Hoje vejo o mesmo dicionário de folhas amareladas, sem notas, somente lembranças avulsas.Eu aqui, agora, solitário, sujeito simples, testando este bloco de notas para que não perca a memória dos meus dias. |